Formação de preços: por que somar uma margem ao custo nem sempre funciona
Aplicar um percentual sobre o custo é prático, mas pode esconder margens muito menores do que a empresa imagina. Um exemplo numérico mostra onde está o problema.
Uma das formas mais comuns de definir preço é pegar o custo do produto e somar um percentual. É rápido e parece seguro. O problema é que esse método pode esconder margens muito menores do que a empresa imagina — e, em alguns casos, prejuízo.
Onde está o problema
Parte relevante das despesas de uma venda é calculada sobre o preço, não sobre o custo: tributos sobre o faturamento, comissões, taxas de cartão, alguns tipos de frete. Quando o percentual é aplicado sobre o custo, essas despesas não ficam cobertas da forma que se imagina.
Um exemplo numérico
Imagine um produto com custo variável de R$ 60,00. As despesas que incidem sobre o preço de venda (tributos sobre a venda e comissão) somam 20%. A empresa quer que cada unidade deixe 25% do preço como margem de contribuição, para cobrir os custos fixos e gerar lucro.
Pelo método de “custo mais margem”, alguém poderia aplicar 45% sobre o custo (20% das despesas + 25% da margem):
| Custo + 45% | Preço calculado sobre a venda | |
|---|---|---|
| Preço de venda | R$ 87,00 | R$ 109,09 |
| (−) Despesas sobre a venda (20%) | R$ 17,40 | R$ 21,82 |
| (−) Custo variável | R$ 60,00 | R$ 60,00 |
| Margem de contribuição | R$ 9,60 (11%) | R$ 27,27 (25%) |
No primeiro caso, a margem real é de 11%, menos da metade do pretendido. No segundo, o preço foi calculado dividindo o custo pelo que sobra do preço depois das despesas e da margem desejada: R$ 60,00 ÷ (1 − 0,20 − 0,25) = R$ 109,09.
O custo unitário também depende do volume
Quando os custos fixos são distribuídos por unidade, o “custo do produto” passa a depender da quantidade vendida. Se o volume cai, o custo unitário sobe; se o preço sobe para compensar, o volume pode cair ainda mais. Por isso, separar custos variáveis e fixos e trabalhar com margem de contribuição costuma dar uma visão mais segura do que um custo unitário “cheio”, cujo resultado depende de critérios de rateio.
O preço também tem um teto
O cálculo a partir dos custos define o preço necessário. O preço possível é dado pelo mercado: concorrentes, alternativas disponíveis para o cliente, percepção de valor. Quando o preço necessário fica acima do preço possível, a resposta não está na planilha de preço, mas em custos, volume, mix de produtos ou no próprio modelo de negócio.
Quando revisar a estrutura de preços
- Quando mudam custos relevantes, como insumos, frete ou mão de obra.
- Quando mudam as despesas sobre a venda — por exemplo, novos canais, comissões ou tributos. A transição da reforma tributária sobre o consumo, que ocorre de forma gradual até 2033, é um caso em que vale simular o efeito sobre preços e margens.
- Quando o volume de vendas muda de patamar.
- Quando a empresa passa a atender clientes ou regiões com condições comerciais diferentes.
Uma estrutura de preços bem montada não é uma tabela fixa. É um modelo que permite simular, antes de decidir, o efeito de cada mudança sobre a margem.